Tribuna livre discute impacto do racismo sobre saúde mental

Setembro amarelo é o mês

de prevenção ao suicídio



Compondo mais de 60% da população brasileira, os negros e negras enfrentaram maiores taxas de suicídio e o racismo é um fator determinante para que esta realidade.


Segundo dados do Ministério da Saúde, referentes a 2019, a juventude negra entre 10 e 29 anos é o grupo que mais tem cometido suicídio no Brasil e a cada dez vítimas desta faixa etária, seis são negras.


A saúde mental desta parcela da população foi tema de debate na tribuna livre na Câmara Municipal nesta terça (28), com a presença da psicóloga Mariana Lopes, graduada pela Universidade Federal de Mato Grosso e pesquisadora da vertente “Psicologia Africana”, que compareceu a convite da vereadora Edna Sampaio (PT).


Na pauta, uma abordagem da psicologia a partir do pensamento africano.


“O racismo é uma premissa básica para falar sobre psicopatologia entre pessoas negras, pois ele é estruturante em nossa sociedade. Viver em uma sociedade ‘anti-negro’ adoece, e historicamente temos diversos fatores que comprovam isso: a política de embranquecimento, o mito da democracia racial, a política de miscigenação, a eugenia na ciência, os manicômios e prisões construídos para receber esta população no pós-abolição da escravatura”, explicou Mariana Lopes.



O racismo estrutural, como gerador de desigualdades, também impacta negativamente sobre a saúde mental, pois é causador de processos de marginalização e criminalização.

Lopes enfatizou que a condição social e econômica de exclusão é adoecedora, pois é geradora da rejeição do negro contra a coletividade e contra si mesmo e diante do fracasso em conquistar a ascensão social, que, na sociedade capitalista, é atribuída apenas à capacidade individual.


“Um dos efeitos desse racismo é a culpa pela condição socioeconômica precária, a que a maioria de nós está condicionada, e o auto ódio tanto por todo o povo quanto contra a si mesmo, por se sentir falho diante dos privilégios da branquitude”, explicou.


Nesse contexto, um dos fatores de promoção da saúde é a restauração do senso de comunidade, que é central dentro da Psicologia Africana, para a qual não há pessoa negra saudável quando a mesma está desligada da prática comunitária.


Segundo a pesquisadora, a noção ocidental de indivíduo difere muito da premissa africana, que traz em si a ideia do “aquilombar-se”, estar na coletividade e, em tempos de isolamento social, entre familiares, movimentos essenciais para a saúde mental.


Também são premissas importantes para a saúde mental a autopercepção de si como negro e a reflexão sobre os impactos da lógica escravocrata sobre a sociedade; a retomada da noção de ritmo, pelo contato com as manifestações artísticas negras (a dança, música, oralidade etc.) e a valorização da espiritualidade.


Para tanto, ela enfatizou a importância de políticas públicas específicas para esta população.

“Muitos de nós ainda estamos em situação precária de saúde física, emocional por falta de acesso à educação, ao saneamento básico, dentro desse contexto pandêmico que estamos vivendo, isso é básico para o bem-estar, para o bem viver”, disse. “É preciso pensar políticas públicas como uma forma de cuidado da saúde mental, repensando o lugar das pessoas pretas. Temos nossas especificidades dentro do contexto cultural e isso deve ser olhado com cuidado”.


“Vivemos em uma sociedade que nos adoece e precisamos, mais do que nunca, falar do racismo. Não podemos mais naturalizar o fato de que a maioria da população está ausente de espaços como este aqui na Câmara”, disse a vereadora, lembrando, que, assim como o presidente da Casa, Juca do Guaraná Filho, é uma das parlamentares que se identifica como negra em um espaço que não foi pensando para esta população.


“Isso tem um peso enorme porque não basta declaração de sermos negros; precisamos fazer a política da igualdade racial, do combate ao racismo em nossa sociedade. Precisamos fazer com que a sociedade inteira compreenda que o racismo é ruim para todo mundo, negros e brancos”, disse ela.


“Não haverá paz, igualdade ou democracia enquanto os corpos negros forem tratados como suspeitos, enquanto formos questionados em nossas competências, nas nossas qualidades. Considero da maior importância, nesse momento histórico, o debate racial e fazer deste um espaço para reflexão sobre essa situação de desigualdade que não podemos mais tolerar”, finalizou.