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Semana da Consciência Negra encerra-se com atividades em escola

Por: Neusa Baptista Pinto

Assessoria de comunicação




Encerra-se neste sábado (19), a partir das 8h, a programação da Semana da Consciência Negra 2022, com oficinas de grafite, turbante, bonecas negras e outras atividades, na escola estadual Leovegildo de Melo, no bairro CPA 3.


A programação, organizada pela vereadora Edna Sampaio (PT), em parceria com os movimentos negro, estudantil, sindical, lideranças religiosas de matriz africana, entidades da sociedade civil e a parceria do poder executivo municipal, teve início na última quarta-feira (16), com uma sessão solene em homenagem a Zumbi dos Palmares.


Na quinta (17), aconteceu na praça Alencastro, a Feira de Negócios Afro, com comercialização de artesanato local, e a Praça do Axé, com alimentos sagrados e rituais dos templos de religiões de matriz africana.


Na mesma data, aconteceu também na escola Leovegildo de Melo, a mesa redonda “Religiões de matriz africana”, com a presença dos babalorixás Paulo de Oxumarê, Nelson de Oxum e Júnior de Xangô, e da historiadora Ana Carolina da Silva Borges.


Na manhã desta sexta-feira (18), a escola recebeu a mesa redonda “Mulheres e lideranças negras”, com a vereadora Edna Sampaio, que é docente da Universidade do Estado de Mao Grosso (Unemat), as pesquisadoras Priscila Scudder, da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) e Ana Luiza Cordeiro, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e a coordenadora estadual do Movimento Negro Unificado (MNU-MT), Isabel Garcia de Farias.



Edna destacou que a dificuldade em se constituir lideranças é muito maior para as mulheres negras, que estão na base da pirâmide social. E afirmou que, em sua experiência na vereança, embora detendo o conhecimento que lhe permite fazer uma leitura sociológica do racismo, ainda assim vê dificuldades em discutir o tema, diante da falta de acesso da população em geral ao mesmo tipo de informação sobre o assunto.


“Precisamos encontrar um caminho para dialogar sobre o racismo com as pessoas que estão do nosso lado, pois pensamos sempre no racismo como algo distante de nós, uma estrutura, e não como algo que está na nossa vivência cotidiana, naquele lugar, com aquelas pessoas. Precisamos falar com as pessoas objetivas, que têm nome e CPF, sobre o racismo e sobre como ele impacta as nossas vidas”, disse ela.


A vereadora destacou a importância de formar novas lideranças negras, especialmente, mulheres, para ocupar espaços de poder com consciência de sua negritude e enfrentando os desafios postos para elas nessa posição, onde muitas vezes são consideradas arrogantes ou agressivas.



“O enfrentamento ao racismo exige intelectuais como estas, mas também formação de quem está cotidianamente no dia a dia da escola. Precisamos fazer o letramento racial destas novas gerações, para essa juventude, pois precisamos nos defender do racismo”, disse ela.


“O racismo não é sobre nós, individualmente, não é nada pessoal, mas diz respeito à forma como fomos educados em uma sociedade racializada: os pretos e pretas para se colocar em um lugar de subalternidade e os brancos e brancas para se colocar em um lugar de direção, comando, superioridade”.



Professora há quase 30 anos, Edna Sampaio relatou que o comportamento dos alunos negros em sala de aula sempre a inquietou, devido às limitações que eles manifestam e o quanto isso reflete o racismo, o qual tem papel decisivo no modo como as crianças e jovens negros se vêem.



“Quanto mais negros são, mais dificuldades os alunos têm de se colocar em sala de aula. No Brasil, o racismo tem como alvo nosso cabelo e tom de pele, então, quanto mais se apresentam estas características, mais racismo se sofre. Mas não se trata somente do que manifestamos externamente, mas do que se sofre internamente. Desde a mais tenra idade, as crianças negras são educadas - em uma educação escolar que não é explícita, mas é presente o tempo todo - para pensar que sabem menos, que precisam se conformar com seu lugar, que estão erradas”, disse.


“Precisamos falar sobre isso, pois o racismo é uma instituição que privilegia as pessoas brancas e nos atravessa também enquanto pessoas negras. Somos vítimas, mas também ajudamos o racismo a se fortalecer [...]. Só poderemos vencer o racismo quando nós, pretos, pudermos ter as nossas próprias referências. Por isso, é tão importante para nós, mulheres negras, termos as nossas referências. Preciasmos manifestar nosso orgulho de sermos negros e isso é muito difícil em uma sociedade racista, cotidianamente”, disse ela.


História negada


Durante sua fala, a professora Ana Carolina destacou a invisibvilização da luta negra e a histórica criminalização das iniciativas de resistência, como o quilombo, a capoeira e as práticas religiosas, e falou sobre a desvalorização e o desestímulo à produção de conhecimento científico pelo povo negro e sobre estas temáticas, enfatizando como isso se reflete no ensino de História.


“A escrita da história oficial institucionalizada que circula nas escolas, muitas vezes não provoca emoção, encantamento nos alunos porque, literalmente, nós negros não estamsos lá, nossa história não está lá. Nesse sentido, as religiões de matriz africana têm esse papel fundamental que é trazer essa cultura negra, indígena, feminina, através, inclusive, de outras sensibilidades, que têm a ver com a liberação do corpo. Na dança, nos rituais, nos conhecimentos que carrega consigo e nesse conjunto de saberes que conhecemos como religiões de matriz africana”, disse.



“A fé é praticada de forma individual. As religiões de matriz africana não querem convencer, nem converter ninguém, querem apenas deixar a sua palavra, naquilo que vem de nossos ancestrais desde a África. O padre, assim como o líder da religião de matriz africana, são sacerdotes diante de sua liturgia. Essa forma de instrução que diz que um é inferior ao outro é que tenta determinar quem tem mais poder. Na verdade, o poder está em cada um, diante de sua religião, de sua fé e de sua igreja”, disse Pai Paulo de Oxumarê.


“Esse tipo de reunião traz e fortalece a democracia. Podermos discutir o direito à liberdade religiosa e o respeito e a tolerância às religiões, especialmente as de origem africana, fortalece a democracia. Precisamos desses encontros, pois, se não falamos, não discutimos, essa pauta fica esquecida e isso não pode acontecer, pois se trata de um tema que está no nosso dia a dia”, disse Thais Rodrigues, professora da escola Leovegildo de Melo.



Saiba mais


Além das universidades citadas, participam da organização do evento mais de 10 templos de matriz africana e cultura afro-brasileira e os seguintes parceiros: Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (Nepre) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) , Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas Estamira Gomes de Sousa, da Universidade Federal de Rondonópolis e Comissão de Relações Étnico-raciais do Conselho Regional de Psicologia. Também participam o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas Estamira Gomes de Sousa, da UFR, a União dos Negros pela Igualdade, Movimento Negro Unificado, a União Nacional dos Estudantes, a União Estadual dos Estudantes, o Grupo LivreMente, o Sindicato dos Trabalhadores Técnicos Administrativos em Educação da UFMT, o gabinete da deputada federal Professora Rosa Neide (PT) e a Associação dos Gestores Governamentais do Estado de Mato Grosso (AGGEMT).

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