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Em discurso, Edna cobra respeito




A vereadora Edna Sampaio (PT) discursou na Câmara Municipal nesta quinta-feira (7) e destacou mais uma vez o viés racial da perseguição que tem sofrido no parlamento por meio do processo disciplinar que culminou com a cassação de seu mandato, e cobrou respeito à sua pessoa e sua trajetória.



Ela lembrou ser a primeira mulher negra a ocupar cadeira na Câmara e salientou que não se sentiu menor devido à perseguição que sofreu não a fez se sentir menor, ainda que tenha se sentido agredida como os negros que foram escravizados.


Vim para dizer que não me senti menor, mesmo quando o peso que me impuseram tenha me ferido as costas, açoitadas tão cruelmente como se ainda fosse escravidão e a negra açoitada por senhores e sinhás que pretendiam amansar ou serenar o seu gênio indomável na peleia de palavras, feito jogo de capoeira que a preta aprendeu e não devia ter aprendido.


A parlamentar também destacou que foi ‘jurada de morte’ política, física, emocional e psicológica diante das diversas formas de violência política de gênero que tem sofrido

A parlamentar destacou o consenso que levou a maioria dos vereadores a votar favoravelmente à sua cassação, apontando que este consenso coaduna com o “desrespeito às normas legais, às regras democráticas e à vontade popular que elegeu com maior número de votos entre as mulheres, uma vereadora negra, petista e de esquerda”.




Ao tentar eliminar a primeira mulher negra da política, não foi apenas a vereadora Edna Sampaio a atingida, queriam atingir o que há de mais profundo e sincero no coração das pessoas: a crença na política, na figura de uma professora, de uma mulher negra combativa e honesta.


Edna Sampaio também enfatizou o quanto a cassação de seu mandato representou a tentativa de destruir a representação de um segmento social no espaço de poder da política e que isso é negar ao trabalhador a esperança em uma política decente.



Quiseram confundir as pessoas, mobilizar o ódio, destruir a minha figura pública como referência para condenar os eleitores ao sentimento de fracasso, decepção e impotência. O consenso é para impedir que haja diferença, para que não exista o diferente na política. E assim, pretende-se fazer crer que ao povo só resta escolher entre iguais porque afinal, “políticos são todos iguais”.

A vereadora também ressaltou ter chegado à Câmara pelo voto popular, vindo de cidadãos que acreditam em uma sociedade mais justa e sem preconceitos e criticou os gastos envidados pela Câmara no processo de sua cassação, recursos públicos desperdiçados.



“Quantos recursos a Câmara pagou mobilizar toda a sua estrutura de vereadores e vereadoras, profissionais do Direito, da procuradoria, técnicos de comunicação, gastos com veículos de comunicação, transmissão, exoneração de pessoal com indenização de direitos, salário de suplente da vereadora e tantos outros recursos públicos gastos para um ano todo de espetáculo de cassada ilegal do primeiro e único mandato de mulher preta, representativo de pautas ausentes neste parlamento?”, questionou.


“Quem será responsabilizado por isso, enquanto mais de 1,2 bilhões de reais de dívidas do município já ameaçam o pagamento de salários de servidores?”, completou.

Edna finalizou dizendo que sua presença na política nunca foi para afrontar seus pares, a quem nada deve e os quais devem a ela, neste momento, o respeito.

“Podem destruir uma pessoa ao mesmo tempo em que sorriem para ela! Mas não podem destruir um pensamento, uma voz, nossas consciências”, disse.



“A História, neste momento, nos convoca a tarefas gigantes, como o enfrentamento à pobreza, às desigualdades raciais e de gênero e à defesa da democracia. Foi para isso que vim aqui. Esta é a razão da minha presença na política. E nenhum consenso ordinário vai mudar isso”, finalizou.


CONFIRA O DISCURSO COMPLETO:

Pela mão da justiça eu retorno ao meu lugar que a Democracia me conferiu pelo voto.


A justiça foi feita e estamos gratos. Estou bem e vou seguir minha jornada ao lado dos meus. Aquilombada, construindo política com um bem coletivo e não privado. Construindo esperança de um dia ver nossa cidade respeitada por governos justos, honestos e realmente comprometidos com o bem viver na cidade.


Vim para dizer que não me senti menor, mesmo quando o peso que me impuseram tenha me ferido as costas, açoitadas tão cruelmente como se ainda fosse escravidão e a negra açoitada por senhores e sinhás que pretendiam amansar ou serenar o seu gênio indomável na peleia de palavras, feito jogo de capoeira que a preta aprendeu e não devia ter aprendido.


Capoeira de palavras, capoeira proibida por aqui, porque assombra os homens e mulheres brancas uma preta falando e sendo ouvida por tanta gente. E pode o oprimido falar? Disseram-me, não!! Eu lhes retruquei: Sim!! Eu sou negra livre e minha palavra ninguém vai prender.


E me juraram de morte. Eu que tive coragem de falar, fui jurada de morte pela covardia. Morte política, mas também física, emocional, psicológica. São tantas as faces da violência de gênero. As mesmas que acontecem em casa, acontecem com maior sofisticação na política. Embora sofisticação não se possa dizer sobre o teatro de horrores que me impuseram. Barbaridades! Como diz Chico César: “Deus me livre da bondade da pessoa ruim”. Da pessoa ruim que não vê no outro humanidade alguma, sororidade alguma, respeito algum.


Da vergonha que eu poderia sentir, me salvou o consenso daqueles que, ilegalmente, cassaram meu mandato sem nenhum pudor e, pior, vangloriando-se da própria torpeza. Dê poder às pessoas e as conheça!


Fui protegida pelo consenso que me cassou. Um consenso que demonstra muito bem quem somos: eu e os vinte e um vereadores e vereadoras. Somos diferentes, somos como água e óleo. Não somos feitos da mesma matéria humana. Eu jamais imaginaria que fossem capazes de tanta crueldade, de tanta violência. Um consenso da grande covardia de quem não tolera a diversidade, o diferente.


O consenso do desrespeito às normas legais, às regras democráticas e à vontade popular que elegeu com maior número de votos entre as mulheres, uma vereadora negra, petista e de esquerda para representar não apenas pessoas negras, mas pessoas brancas, homens e mulheres, jovens, pessoas LGBTQIA+, pessoas pobres, em situação de rua, migrantes que tiveram a oportunidade de ver as pautas de suas vidas sendo tratadas como o centro de um mandato popular.


Criminalizar alguém por sua força política, por sua representatividade é a covardia mais antiga e mais comum na política. Os que usam a política como seu negócio particular, enganando os eleitores sobre suas verdadeiras práticas e intenções, temem qualquer tipo de contestação, qualquer tipo de diferenciação.


Ao tentar eliminar a primeira mulher negra da política, não foi apenas a vereadora Edna Sampaio a atingida, queriam atingir o que há de mais profundo e sincero no coração das pessoas: a crença dessas pessoas em uma figura política, a figura de uma professora, de uma mulher negra. Destruir a representação de um segmento social é destruir qualquer possibilidade das meninas e meninos negros olharem para o poder e se reconhecerem ali. É negar a qualquer trabalhador, homem ou mulher, preto ou não, o direito de ter esperança numa política decente, feita por quem tem responsabilidade com a vida das pessoas e com a função pública que lhe foi conferida pelo voto.


Quiseram confundir as pessoas, mobilizar o ódio, destruir a minha figura pública como referência para condenar os eleitores ao sentimento de fracasso, decepção e impotência. O consenso é para impedir que haja diferença, para que não exista o diferente na política. E assim, pretende-se fazer crer que ao povo só resta escolher entre iguais porque afinal, “políticos são todos iguais”.


E é nisso que querem o nosso povo acredite: na desesperança! E, assim, histórias de compra de votos viram anedotas engraçadas para rir nos bastidores do poder e continuar tudo exatamente como sempre foi, sem perturbação.



Eu cheguei na Câmara pelo voto de eleitores livres, conscientes e que, todos os dias encontro com eles e, são rostos tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão parecidos no desejo de uma sociedade mais justa, mais igualitária, sem racismo ou misiogonia, sem preconceitos de qualquer ordem.



Esse tipo de gente está espalhado em todos os bairros, em todos os estratos sociais, por toda a cidade e estado e, me honraram desde sempre com a confiança que depositaram em mim, mesmo durante toda essa tempestade que quis me varrer do mapa. E eu quero retribuir, continuando o trabalho para o qual fui eleita.



Acusar sem provas uma mulher negra no espaço de poder e fazer disso um palanque político grotesco de violência de gênero, de racismo e misoginia, é algo do qual me envergonho profundamente diante da minha cidade natal, do povo de Cuiabá que, certamente, não merece uma Casa de Horrores sustentada com dinheiro público para fazer a pior das políticas.


Quantos salários a Câmara pagou mobilizar toda a sua estrutura de profissionais do Direito da procuradoria, técnicos de comunicação, gastos com veículos de comunicação, transmissão, exoneração de pessoal com indenização de direitos, salário de suplente da vereadora e tantos outros gastos públicos utilizados para um ano todo de espetáculo de cassada ilegal do primeiro e único mandato de mulher preta, representativo de pautas ausentes neste parlamento?


Quem será responsabilizado por isso, enquanto mais de 1,2 bilhões de reais de dívidas do município já ameaçam o pagamento de salários de servidores?


A minha presença na política nunca foi para enfrentar vereadores e vereadoras. Não lhes devo nada e, agora, são eles que mede devem, ao menos respeito. A minha convivência com os pares não será diferente do que sempre foi. Porém, agora eu sei o quanto podem ir longe para manter os seus pequenos poderes, os seus privilégios. Podem destruir uma pessoa ao mesmo tempo em que sorriem para ela! Mas não podem destruir um pensamento, uma voz, nossas consciências.


Sigo na luta, de cabeça erguida, seguindo a inspiração de tantos homens e mulheres grandiosos, à frente de seu tempo, acima de todas as mesquinharias de pequenos e ordinários poderes, cotidianos e mornos privilégios a serem mantidos a qualquer custo porque desconhecem a grandeza de seu povo.



A História, neste momento, nos convoca a tarefas gigantes, como o enfrentamento à pobreza, às desigualdades raciais e de gênero, sociais, econômicas e culturais, às mudanças climáticas, ao racismo ambiental.



Neste mundo dominado pelo egoísmo de pessoas que se enriquecem destruindo rios, florestas e toda forma de vida, produzem-se mentiras como formas de destruir a Democracia porque a tirania destruidora se opõe à regimes democráticos.


Precisamos superar esse modelo de irracionalidade da extrema-direita para construirmos novas relações entre os seres humanos e com a natureza. Para nós, que defendemos a Democracia, desistir não é escolha.


Assumamos junt@s a nossa parte nesta luta planetária por Democracia e pela continuidade de nossas vidas no planeta. Comecemos pela responsabilidade em melhorar a política e os políticos de nossa cidade.


O que muda a política não é o consenso, mas a divergência. Todo o consenso é para manter a ordem estabelecida, e para isso houve consenso entre os vereadores e vereadoras.


Eu sou a divergência na Câmara. Estou e estarei sempre do lado dos mais pobres, da classe trabalhadora.


É esta a razão de minha presença na política e nenhum consenso ordinário vai mudar isso.



INVICTO

William Ernest Henley


Da noite escura que me cobre,

Como uma cova de lado a lado,

Agradeço a todos os deuses

A minha alma invencível.


Nas garras ardis das circunstâncias,

Não titubeei e sequer chorei.

Sob os golpes do infortúnio

Minha cabeça sangra, ainda erguida.


Além deste vale de ira e lágrimas,

Assoma-se o horror das sombras, E apesar dos anos ameaçadores,

Encontram-me sempre destemido.


Não importa quão estreita a passagem,

Quantas punições ainda sofrerei,

Sou o senhor do meu destino,

E o condutor da minha alma.



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