Em Cáceres, Edna Sampaio defende protagonismo do povo preto

Atualizado: 21 de fev.




Durante sua participação na V Conferência Municipal de Promoção da Igualdade Racial e III Conferência Regional do Polo de Cáceres, no último sábado (19), a vereadora Edna Sampaio (PT) destacou que mulheres, negros, pessoas LGBT e outros grupos vulneráveis são as principais vítimas da destruição das políticas públicas promovida por Bolsonaro e ressaltou a importância de empoderar esta parcela da população para que ela possa ocupar espaços de poder.


A atividade fez parte da agenda da parlamentar neste final de semana, quando esteve visitando Cáceres e Chapada dos Guimarães, reunindo-se com grupos representantes deste segmento da população.


Na visão da parlamentar, a conferência não deve servir para legitimar a convocação feita por um governo racista, homofóbico, machista como o de Bolsonaro, mas sim para fomentar a resistência.


“Precisamos aproveitar este espaço para organizar nosso debate e nossa luta, pois, no ano que vem, vamos disputar as nossas pautas com o governo que virá, independente de quem seja; a nossa pauta precisa ser central para o governo que virá; a pauta da igualdade racial é a pauta da democracia”, disse ela.


A vereadora destacou a influência do racismo como parte estruturante da sociedade, discutindo como ele interdita a atuação do povo negro nos mais diversos espaços sociais e no exercício do poder. Ela salientou a importância de que as pessoas negras ocupem lugares onde possam interferir na definição de políticas públicas.

“O racismo é uma tecnologia de interdição dos corpos negros e, para resolvermos isso, precisamos de poder. Significa ocupar os espaços, liderar os processos , não ter medo e não naturalizar o fato de que num espaço como esse [Câmara] não tenhamos imagens de mulheres e pessoas pretas; isso não é natural, tem que ser repudiado, denunciado”, disse ela.


Ideologia e discurso moralista


Segundo a vereadora, o avanço da luta dos negros, mulheres, pessoas LGBT (e outras populações marginalizadas) por seus direitos gerou como reação o crescimento do discurso moralista de extrema-direita, que esteve presente no golpe contra a ex-presidenta Dilma, e que é a pauta mais importante, o instrumento principal do bolsonarismo.


“Esse discurso é tão importante, porque estes grupos são a maioria do povo brasileiro em qualquer município. O Brasil viveu quase 400 anos de escravidão, e diferente os EUA que tem 30% de população negra, nós temos, em Mato Grosso, 60% e na Bahia 80% de população negra. Mas quem está nestas paredes? Homens brancos que ocupam os espaços de poder e dominam a maioria e nós aprendemos a naturalizar isso”, disse ela.

Ela salientou que o racismo afasta os negros do poder, começando por minar sua crença em si mesmo.




“O racismo é uma tecnologia de dominação que, em primeiro lugar, incute em nossa mente o desprezo por nós mesmos, estabelecendo um culto, um padrão do que é belo, aceitável. E certamente não são nossos cabelos, nossos traços herdados da nossa ascendência”, disse ela.


Num segundo momento, para aqueles que, apesar disso, conseguem alcançar espaços de poder, o racismo continua a atuar, de maneira ainda mais sofisticada e sutil, interferindo no exercício do poder, e isso é ainda mais violento na atualidade, sob o governo de Bolsonaro.

“Estamos vivendo uma guerra contra esse governo que veio para destruir o poder que esses povos que estão fora do poder. Para isso, foi dado o golpe no Brasil: para que o povo brasileiro não despertasse sua potência [...]. O governo Bolsonaro representa isso. Tem como espinha dorsal a tecnologia racista”, disse ela.


Em sua opinião, para combater o racismo, é necessário compreender que ele integra a estrutura social e é um aprendizado que faz parte do nosso modo de existir no mundo e, sendo assim, perpassa negros e não negros.



“O racismo, como o machismo, são tecnologias de dominação que precisam ser abolidas. No entanto, ao nascer, na própria língua, nas primeiras palavras, a gente aprende. Aprendemos a existir e, junto, com esse aprender, aprendemos a ser racistas”, disse ela.

“É uma instituição que beneficia as pessoas não negras, mas ele atravessa nós negros também, e acabamos tendo crenças limitantes por causa dele. Cada um de nós, que quer combater o racismo, precisa se perguntar: onde o racismo mora em mim?”.