Racismo é estrutural porque é naturalizado”, diz Edna durante palestra





O racismo só é estrutural porque é naturalizado e ocultado, o que faz com ele tenha mais poder. A forma como o racismo integra a sociedade e se encontra oculto nas relações sociais foi o tema da palestra “Racismo estrutural e políticas públicas”, proferida pela vereadora Edna Sampaio (PT) durante o seminário ECCO 2022, promovido pelo programa de pós graduação em Estudos de Cultura Contemporânea da UFMT (PPGECCO-UFMT), na segunda-feira (18).


“O racismo tem o poder de ser estruturante. Ao mesmo tempo em que o racismo está dado como uma estrutura, que ele estrutura nossas relações, que já viemos de uma sociedade totalmente permeada por relações racializadas, ele também estrutura nossa própria forma de nos constituir, nossa forma de percepção, inovando e criando novos mecanismos de opressão dentro do próprio racismo”, disse ela.


A vereadora comentou sobre as opressões de gênero e raça que a atingem, como se descobriu mulher negra e os desafios que enfrentou nessa jornada, no contexto de uma família multirracial, onde ser negro era visto, como em tantas outras famílias, como situação de desvantagem e, ao longo de sua trajetória, como estudante na então Escola Técnica Federal de Mato Grosso - hoje Instituto Federal de Mato Grosso -, da Universidade Federal de Mato Grosso e no movimento sindical.


"Essa interseção das opressões que está contida no meu modo de ser enquanto sujeito social, uma mulher preta e vinda da classe trabalhadora, das periferias, tudo isso pesa muito sobre a minha trajetória, mas hoje, na política, é o momento em que talvez eu tenha consciência mais aguda dos mecanismo sutis pelos quais estas opressões agem sobre nós", disse ela.


A vereadora destacou a confusão existente entre os conceitos de racismo e injúria racial, sendo esta última a expressão prática do racismo em si, mas não a sua totalidade.

“A maior parte do racismo não conseguimos ver nem compreender justamente porque ele se oculta da nossa vista para permanecer, é por isso que ele permanece. E isso também na política, que é o espaço mais complexo da ação humana, a construção mais sofisticada da humanidade, pois lida com subjetividades e estruturas de poder”, disse ela, exemplificando que estes aspectos estão entremeados em suas relações com os demais vereadores.


“O racismo estrutural não tem voz, não grita, não é injúria, nem pode ser visto, se oculta. É uma forma de interditar nossos corpos de ocupar estes espaços de poder”, disse ela.


“Tudo está relacionado ao poder. O racismo não é uma preferência das pessoas brancas. O racismo é uma estrutura de poder, de dominação que nos impede de ter acesso ao poder e ao não ter acesso, nos colocamos na posição de reprodução de uma força de trabalho desqualificada, desvalorizada e que funciona como estratégia de acumulação do capital às custas da remuneração irrisória do que trabalha: povo preto e das mulheres”, disse ela.

Para ela, o poder precisa ser visto de maneira ampliada, para além da ocupação de cargos políticos e mandatos, mas destacou as barreiras existentes dentro dos próprios partidos para a ascensão das lideranças negras.


"Há uma desqualificação simbólica daqueles que são subalternos e quando furamos essa barreira (como eu fiz ao insistir em ocupar este espaço e, ocupando-o, demonstrar que tenho qualidade para isso, capacidade intelectual para debater a grande política, que uma mulher preta fala, e, sim, o subalterno pode falar), isso causa outro tipo de interdição, que usa como justificativa o fato de sua candidatura não ser prioridade dentro do partido, por ter chegado depois”, disse ela.


Segundo a parlamentar, ainda que a narrativa de combate ao racismo seja normalizada dentro dos partidos, na prática há uma estrutura de poder que impede os negros de entrar.


“As candidaturas negras não são priorizadas porque nós chegamos depois, sim, vamos sempre chegar depois no poder. Temos um país que viveu a escravidão, nosso povo é empobrecido porque a ele não foi dada qualquer alternativa de acesso a bens materiais e simbólicos, sua cultura foi completamente desqualificada, não legitimada por uma sociedade que hierarquiza tudo. É óbvio que vamos sempre chegar depois”, disse ela.

Confira abaixo o vídeo da palestra:


https://www.youtube.com/watch?v=zuvFTOh5i3U