“Federação pode significar rebaixamento do programa do PT”, diz Edna



Parlamentar defende adiamento da pauta

A vereadora Edna Sampaio (PT) afirmou que o partido corre o risco de rebaixar seu programa de governo se cometer na formação da federação os mesmos erros ocorridos em coligações, no passado.

Edna lembrou que, nas eleições de 2018, a sigla apoiou Wellington Fagundes (PL) ao governo do estado - hoje o senador é o principal aliado de Bolsonaro em Mato Grosso - e esteve na coligação que ajudou a eleger o deputado federal José Medeiros (PODE), bolsonarista de primeira hora. Uma coligação “esdrúxula”, na visão da parlamentar.

Para ela, o mesmo pode ser dito hoje em relação à inclusão do PSB, que compõe a base do governador Mauro Mendes (DEM), e do PV, com o qual, em Mato Grosso, o PT não tem proximidade.

Outra preocupação é o diálogo do PT com setores como o agronegócio, que foi frontalmente contra o partido e colaborou com a ascensão do governo Bolsonaro. “Quanto vai custar o apoio desta gente à eleição do Lula?”, questiona.

A parlamentar diz ser favorável à ideia da federação partidária, pois ela é baseada em um compromisso programático, leva os partidos se comprometerem com a governabilidade e compartilharem a responsabilidade, valorizando o papel do partido.

Mas ela avalia que o partido deveria deixar essa decisão para depois das eleições, já que, ao propor a aliança, Lula não busca votos, mas sim governabilidade para cumprir a agenda de restituição dos direitos dos trabalhadores e de retomada dos investimentos públicos, e apoio a um governo mais à esquerda, comprometido com os movimentos sociais.

Entre as pautas urgentes, segundo ela, estão a revogação da MP que congelou o teto de gastos públicos por 20 anos e da reforma trabalhista e a taxação das grandes fortunas.

Além disso, há os riscos e dilemas que envolvem a negociação com os partidos aliados. “Não é pelos votos, nem porque Lula dependa da federação para se eleger, mas sim porque ele precisa de maioria no Congresso. Também porque custaria muito menos para o país se o PT fizesse uma federação com compromisso, com programa de governo, do que ficar negociando ‘a retalho’ com um congresso que não sabemos como será”, disse.

Para ela, toda esta situação não seria um problema se houvesse mais tempo para a construção de um programa de governo, mais diálogo do partido internamente e com a sociedade. “Isso não pode ser feito como um acordo ‘do alto’. Tem que ser ouvida a militância e todas as forças de dentro do partido; tem que ser uma construção de baixo para cima, e de cima para baixo, em diálogo constante”, disse.

“Se não conhecemos os termos dessa federação, corremos o risco de invalidar o partido, e o partido é muito importante para o governo que queremos fazer”, afirmou.

Em sua opinião, eleger Lula talvez seja a parte mais fácil da missão do partido. Difícil será governar para a classe trabalhadora.

“A federação pode custar um rebaixamento do programa do PT, uma domesticação do PT, pois as elites do país temem o PT mais do que temem o Lula, uma vez que o partido é uma organização perene, que tem capilaridade, militância”, disse.

“A federação não pode ser lida apenas da perspectiva eleitoreira. Não podemos permitir que os demais partidos interditem o PT em sua agenda política. Se isso não está claro para nós, então, a federação é temerária”.