Edna promove tribunas sobre relações raciais

Atualizado: 10 de nov. de 2021


Cuiabá conta com 300 templos de prática de religiões de matriz africana, segundo o Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial de Mato Grosso. A população negra compõe 64% da população de Mato Grosso, segundo o último Censo do IBGE.

Mas há uma invisibilidade destes templos no cotidiano e os adeptos tendem a se “camuflarem”, buscando o anonimato.




Resultado da perseguição sofrida pelas religiões de matriz africana, que ocorre em todo o país. O tema foi abordado pelo Babalorixá, historiador e coordenador da Associação cultural Ébano Brasil, João Bosco da Silva, membro do Coletivo Negro Universitário da UFMT, convidado para a Tribuna Livre da Câmara Municipal de Cuiabá nesta terça-feira (9) por iniciativa da vereadora Edna Sampaio (PT).


As tribunas livres sobre temas referentes a relações raciais fazem parte da programação do mês da Consciência Negra, que está sendo organizada pela vereadora.


Na última semana, a tribuna recebeu o representante do Movimento Negro Unificado (MNU), Ivo Gregório de Campos, que falou sobre a história deste coletivo e presidente da comunidade quilombola do Quilombo de Mata Cavalo, no município de Nossa Senhora do Livramento.



Bosco apontou como o preconceito contra as religiões de matriz africana é arraigado socialmente, sendo defendido até mesmo por teóricos e autoridades que influenciaram o pensamento social.


Ele citou o exemplo de um juiz federal do Rio de Janeiro (RJ) que, em, 2014 afirmou em uma sentença que as religiões de matriz africana, por não contarem com texto base, estrutura hierárquica ou deus a ser adorado, não eram religiões.


“Isso foi noticiado em vários meios de comunicação, com repercussão em mídias sociais. Foi um prato cheio para aqueles que não têm respeito pela forma de ser, crer e louvar do outro, se sentindo no direito a insultar, vilipendiar e depredar templos de cultura religiosa de matriz africana e afro-brasileira”, disse ele.


Um dos episódios citados por ele como tendo sido fomentados por ideias como esta aconteceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 2015: o apedrejamento de uma garota de 11 anos, atacada ao sair de um culto religioso, com a família, todos praticantes de candomblé. Uma das pedras atingiu a cabeça da criança.



Intolerância em Cuiabá



Em Cuiabá, Bosco citou o caso de uma casa de religião de matriz africana do bairro Santa Laura que, em março de 2016, foi invadida por vândalos, que furtaram alimentos, botijão de gás e destruíram objetos religiosos. “Só neste templo, já aconteceram 40 invasões”, disse ele.


No mesmo ano, um centro de umbanda do bairro Coophema também foi invadido e, em 2019, ocorreu o mesmo com outro, no bairro Tijucal, onde um homem destruiu o templo afirmando que não aguentava mais ver as práticas de candomblé no local.


Em outubro do ano passado, uma mulher adepta de religião de matriz africana de Cuiabá foi demitida do emprego por ter raspado a cabeça como parte de seu ritual de iniciação religiosa, simbolizando a consagração ao orixá. Ela foi acusada de macumbeira.


“Que relação tem estes fatos com a fala do juiz federal do Rio de Janeiro, em 2014? Alguns afirmarão que não há correlação, porém, ao afirmar que as religiões de matriz africana e afro brasileira não são religiões [...] fez e faz aflorar em alguns seres humanos a intolerância aos cultos existentes”, disse ele.


O historiador destacou o papel do Legislativo em cobrar do executivo o cumprimento de leis como a 10.639/03, que determina a inclusão dos conteúdos sobre a cultura afro-brasileira no currículo, contribuindo para o combate ao racismo religioso.


“Temos insistido muito na defesa do povo negro do nosso município, pois, com certeza, é uma pauta que precisa ter abertura para discussão, especialmente o povo de religião de matriz africana. Precisamos trazer a pauta deste povo, pois uma das formas de preconceito é contra as religiões herdadas pelo povo preto, aprisionado por tanto tempo nos cativeiros deste Brasil”, disse a vereadora.

Ela informou que 12 casas de religião de matriz africana estão envolvidas na construção da agenda da Semana da Consciência Negra, que está sendo realizada pelos movimentos sociais e pelo seu mandato, cuja programação começa na próxima sexta (12).