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Cuiabá faz 304 anos: Confira o que diz Edna Sampaio

Texto de Edna Sampaio: Aniversário de Cuiabá 304 anos

Há uma Cuiabá escondida que eu trago em mim. Uma Cuiabá das lembranças, mas também da realidade de muitos, da maioria. Uma Cuiabá onde a manga não era pintura de artista famoso, nem cores como de Almodóver. Uma Cuiabá que transpira e se inspira, não sabe bem o porquê. Uma Cuiabá sem qualquer pretensão a não ser de existir. Tem uma Cuiabá que não é do centro dos casarios e chafariz.


Uma Cuiabá que não é da cuiabania. Esse termo inventado para reverenciar a cultura das elites cuiabanas. Como se cuiabanos coubessem num estrato social, num conceito único. Há uma Cuiabá profunda, histórica e apagada do negro, do indígena, dos quilombos, da cultura suprimida, dos monumentos que nunca foram erguidos. Conheci uma Cuiabá do lugar mais profundo de onde nasceu esta cidade.


Nos carrapichos dos terrenos baldios, nas pedras disputadas do cerrado, do marmelo e do pé da erva de São Caetano e sua fruta amarela, que chamávamos de galinha. Das lixeiras retorcidas, cujas folhas usávamos para arear as panelas. Dos caminhos e trilhas que nos levavam entre uma casa a outra, em sintonia solidária, na divisa do porco que a minha avó matava e compartilhava com os vizinhos em pequenas vasilhas de alumínio variadas para receber a partilha.

Como era praxe, comer e não repartir, era severamente reprovado nas etiquetas de nossos costumes. A uma Cuiabá profunda, onde eu vim e atravessei o muro para entrar nos salões da Cunha Bania. E se eu pudesse voltar aquela menina cuiabana que fui, eu diria que nossa cuiabana idade está nos quintais de quitutes sem muros, onde rompemos o arame farpado para poder passar e ir ao encontro do vizinho.


Um quilombo de solidariedade que me permitiu sobreviver e chegar até aqui após 304 anos. Tem uma mulher preta no mandato político no parlamento cuiabano. Quanta responsabilidade com meu povo, com essa nossa cuiabana cidade que, muito além de um patrimônio artístico, é a cultura de quem se reinventa para sobreviver numa cidade tão profundamente desigual. Ao iniciarmos o quarto século da nossa história, que tenhamos a chance de uma cidade renovada, uma cidade boa para toda a nossa gente.


Que nossa cultura não se resuma a folclore e festas de salões, mas se efetive como a cultura cotidiana do bem comum, da justiça e da oportunidade para os que aqui sempre estiveram e para os que vieram depois. Somos todos humanos e merecemos uma Cuiabá sem fome, sem miséria, sem preconceito, sem discriminação, sem ruas esburacadas, sem abandono, com equipamentos de cultura e lazer para crianças, adultos, jovens e velhos, acesso à saúde, à educação e se adoecer, acesso a médicos e hospitais.


Uma Cuiabá que respeite as nascentes dos nossos rios, os nossos rios, nosso cerrado e Pantanal. Enfim, que respeite a vida e a nossa história e que possamos recontar a nossa história a partir da luta de seu povo trabalhador. Mulheres indígenas, os ausentes da história contada dos nomes de ruas e dos monumentos.


Que a compreensão do passado e do presente nos permita inventar um futuro melhor. Parabéns Cuiabá!


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