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Carta Aberta à Maysa Leão 



Chore para limpar a alma, vereadora Maysa Leão, porque os covardes não merecem nossas lágrimas.


Veja que ser forte não é uma escolha para mulheres que participam da política. Escolher o lado na defesa de todas as mulheres; sim!


Observe que ser mulher é um código para definir nosso lugar social e, não importa se é branca, classe média alta, rica ou uma mulher preta das quebradas, do ônibus lotado, dos filhos sem pai ou qualquer outra condição que impõe a sua classe social.  Mas, é preciso dizer que mulheres da classe trabalhadora, mulheres negras, mulheres trans, mulheres indígenas são as mais suscetíveis à crueldade da violência de gênero e experimentam todos os dias esse amargor.


Mulher é corpo controlado pelo Estado, por leis que os homens fazem para nos definir antes mesmo que possamos nos definir por nós mesmas. É preciso SER mulher para entender, crescer na dor que, cedo ou tarde, nos mostra a dura e implacável violência da qual nenhuma de nós escapa.


São os homens que fazem as leis, que as aplicam e que as fiscalizam a partir de seus interesses.  São os homens que controlam as estruturas econômicas sociais e políticas, do Estado ao Mercado, da igreja ao futebol, dos partidos às instituições familiares. Ainda são poucas as mulheres com poder além dos espaços domésticos e do cuidado. Nossa quase ausência na política é reflexo da precariedade afetiva, intelectual e econômica imposta às mulheres. Somos um país onde 85% das pessoas têm algum tipo de preconceito contra as mulheres, nos diz pesquisa recente da ONU/Mulher.  Somos um país de mulheres com altos preconceitos contra mulheres!! E dizem que nós, mulheres, cooperamos pouco e concorremos muito entre nós. Veja como as artimanhas do machismo nos cegam e nos aprisionam!


O poder masculino, por mais ostensivo, violento e óbvio que seja, não é reconhecido assim por muitas mulheres porque somos todas atravessadas pelo confinamento individualista do machismo e não é fácil enxergar nossa condição. Por isso, entre os que te atacam, muitas são mulheres, como acontece comigo. É que o machismo não seria um poder opressor tão importante, se não contasse com a cooperação das próprias mulheres. Nossa tarefa é árdua e exige desconstruir em nós o tapa-olho que o machismo nos colocou. Desconstruir para construir uma nova consciência humana porque o machismo é a mais antiga forma de opressão e afeta a condição humana de homens e mulheres.


Há muitos homens aliados, felizmente!! Mas duvide daqueles que querem defender as mulheres atacando outras. Eles querem parecer o que não são.

Eu me solidarizo com você porque aprendi, desde muito jovem, que a dor e a alegria de ser mulher, precisa ir além das empatias seletivas para compreender as estruturas do poder que não nos pertencem e que nos vitimam. Somos remetidas à condição de inferioridade em toda situação de violência. É nessa hora que muitas mulheres sentem vergonha, sentem culpa e não denunciam a violência que sofrem.


A política precisa se “mulherizar” para que Cattanis não se criem e nem sejam premiados por suas condutas misóginas.  Os homens também podem evoluir em nossa direção e se libertarem do machismo, afinal, não há lugar para todos os homens no lugar que o machismo reservou para alguns, apenas. É a fragilidade dos homens pelo fracasso de não corresponderem ao ideal de força, inteligência e/ou sucesso masculino que os leva à violência contra a mulher. O machismo é, sempre, o desamor pelas mulheres.


Masculinidades frágeis são produzidas por homens que não crescem e permanecem meninos violentos que não podem ser rivalizados, contestados e, menos ainda, por uma mulher. Muitos desses homens frágeis e adoecidos estão no poder e, por isso, enxugamos gelo ao falar feminicídio sem combater suas causas.

Em Mato Grosso, desde o início do ano, 18 mulheres foram assassinadas, deixando dezenas de órfãos.  A cada mês, mais de duas mulheres são assassinadas pelo fato de serem mulheres!


Não pense que o feminicídio nada tem a ver com o que sofremos de violência na política.  A violência política de gênero é a autorização pública para todas as formas de violência contra as mulheres. Pois, se nós, que somos vitrines, que temos o poder conferido pelo voto popular (algo tão raro), somos expostas a tanta violência; as não têm esse poder são vítimas de violência ainda maior.


A violência de gênero, sob todas as formas, é decorrente da desigualdade de poder entre homens e mulheres.  Um poder que não nos permite contestar um homem. Isso acontece em casa, na rua, no trabalho, na política... Onde a mulher estiver porque se há violência de gênero, é porque somos vistas como inferiores, cidadãs de segunda classe e, portanto, abaixo do Direito.


Seu choro na Sessão da Câmara, vereadora Maysa, não é fraqueza, é um rio de emoção que precisa ser transbordado para desobstruir o olhar sobre a violência que pesa sobre você e pesa sobre todas nós.  A política precisa de gente que sabe chorar e de mulheres que levantem outras mulheres.


Diante das lágrimas de uma mulher (branca), alguns vereadores, se colocaram em defesa do absurdo que afeta a sua dignidade humana. Mas, são os mesmos que querem me cassar. São os mesmos que me condenam sem provas porque não precisam delas para tentar destruir uma mulher preta, basta que a preta se torne inconveniente para os interesses dos homens para que a presença do corpo preto se torne insustentável. A violência racial tem se sustentado, desde a escravização, na justificativa de “tendência a criminalidade” da população negra. E, assim, o fato é que aos corpos negros é negado o direito à honra.


Eu conheço bem os mecanismos do racismo estrutural e institucional. Ele explica muito sobre o genocídio e o encarceramento das pessoas negras.  Também conheço bem o pacto de solidariedade da branquitude. O mesmo pacto que existe entre os homens. E, assim, mulheres brancas são protegidas, desde que não reivindiquem sua autonomia e não ameacem os homens do/no poder. Mulheres pretas são sempre um incômodo, a menos que estejamos limpando o chão e que possam nos olhar de cima para baixo.  


Confesso que eu não chorei até agora porque uma mulher preta não pode se dar ao luxo de demonstrar fragilidade sem ser acusada de “mimimi”. Não desperta empatia o choro de uma mulher preta.  Enquanto o choro de uma mulher branca desperta todo tipo de sentimento de proteção nos homens, inclusive, em alguns homens negros que lutam por uma masculinidade à imagem do homem branco.  Mulheres brancas sempre foram vistas como frágeis e delicadas e nós, mulheres negras, cujo passado ancestral foi o cativeiro, somos vistas como agressivas, ardilosas e tão fortes que suportam toda violência atroz. Essa é a chave de nossa desumanização.


Mas a verdade é que somos todas humanas e, faço de suas lágrimas as minhas, meu respeito e solidariedade porque somos mulheres e, mesmo tão diferentes, compreendo que o fim da opressão dos homens sobre as mulheres e o fim da violência contra nossos corpos, só acontecerá quando todas as mulheres forem respeitadas.


Por isso, meu feminismo lhe abraça, Maysa. Porque não há feminismo sem generosidade entre as mulheres. Não se trata de romantizar as mulheres, nem de dar a outra face, como Jesus o fez. É sobre a Ética do respeito que precisa haver na política. Somos pessoas, seres humanos e o feminismo é sobre não aceitarmos sermos tratadas como menos humanas, como uma sombra dos homens, como figuras estéticas que não podem incomodar jamais o conforto masculino, hétero e cis gênero, dos que se sentem donos de todos os lugares do poder.


Ao expressar minha solidariedade, desejo que fique bem, vereadora Maysa, desejo que vençamos esses misóginos e que, por estas terras, as mulheres possam discutir Política de alto nível, sem sermos interditadas para limpar a sujeira da violência, da misoginia que eles derramam sobre nós sempre que temem nossa qualidade, nossa combatividade e o fato de representarmos a maioria que está ausente do poder. Porque a violência de gênero (assim com o racismo) nada mais é que o temor dos homens frágeis sobre a força de mulheres fortes. E, num tempo de fascismo, o machismo e a misoginia tomam forma de barbárie consentida.


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