As Imposições do Ser Mulher

Por Yasmin Nobre da Silva


O papel da mulher social e filosoficamente definido

Na filosofia, o feminismo ganhou destaque com o livro O segundo sexo (2016), de Simone Beauvoir. Sua análise filosófica sobre as mulheres permite a conscientização do padrão de pensamento imposto, que as definia como irracionais e consequentemente sem direitos. Beauvoir começa o seu livro levantando a seguinte questão: “O que é uma mulher?”. Ao pensar nessa categoria “mulher”, é possível questionar o conceito e suas consequências: quais seriam as consequências de uma definição tão fechada e idealizada do sujeito mulher? Quais as implicações epistêmicas da categoria? Quem se beneficia da conceituação “mulher” ao longo da história ocidental?


Desde os primeiros filósofos, a distinção entre mulheres e homens foi feita de modo claramente desfavorável às mulheres. Aristóteles, por exemplo, afirmava a plenitude da humanidade por meio da masculinidade e definia a fêmea como um conjunto de carências de virtudes; sendo assim, em todas as áreas da sociedade, o homem era o exemplo ideal de ser humano, e o feminino era o resultado de tudo que o primeiro rejeita. No período iluminista, no século XVIII, tal definição não foi alterada, ela apenas foi feita de outro modo, pois a definição de “ser mulher” continuou como sendo um ser passivo, sujeitado e carente de virtudes. É possível identificar essas categorias nas teorias de diversos filósofos, mas serão destacadas aqui apenas algumas passagens de Rousseau.


A escolha filosófica do contratualista Jean Jacques Rousseau (1712-1778) é feita devido à sua importância na área da educação, expressa principalmente em Emílio (2004). Nessa obra, o autor faz uma “separação entre o que é da gênese humana e o que é advento da civilização, o que é natural e o que é artificial”. Seu livro se tornou um dos mais completos livros de educação do seu tempo, o que o fez modelo para o século XIX. O livro V de Emílio descreve Sofia, uma moça nascida, formada e limitada para tornar-se uma mulher digna de ser companheira de Emílio. Emílio, para tornar-se um homem bem-educado, necessita de quatro livros inteiramente dedicados a ele, mas Sofia, feita para ser sua companheira, é formada por meio de apenas um livro. A obra é intitulada de Sofia ou A Mulher e nela Rousseau afirma:

Em tudo o que não se prende ao sexo, a mulher é homem: tem os mesmos órgãos, as mesmas necessidades, as mesmas faculdades; a máquina é construída da mesma maneira, as peças são as mesmas, o jogo de ambos é igual, o aspecto semelhante; e sob qualquer ângulo que os consideremos só diferem por mais ou por menos.

A mulher aparece na obra de Rousseau, então, por meio do homem, para ser sua companheira. Ele afirma, entretanto, que, enquanto estrutura, ela pode ser considerada homem. Ela tem as mesmas necessidades e faculdades, mas mesmo assim ele a subcategoriza, o que leva a questionar: onde estaria a diferenciação entre Sofia e Emílio? Por meio de seu destino de fêmea que é construído na concepção rousseauniana baseado no sexo? Mas que subcategoria é essa?


O comum entre homem e mulher para Rousseau é referente à espécie, a diferença se deve ao sexo, pois a relação intrínseca entre corpo e moral é baseada no sexo. O filósofo defende que é absurdo desejar a igualdade entre os sexos, pois cabe a cada um deles cumprir com seu papel definido por meio da natureza. Pois, segundo o autor, quando desenvolvem sua “destinação particular, são mais perfeitos nisso do que assemelhando-se ao outro”. Essa é, portanto, uma concepção essencialista a respeito da mulher (e do homem), caracterizada pelo seu papel na sociedade. A justificação de Rousseau para o papel de cada um é a própria natureza distinta de mulheres e de homens, de modo que o argumento requer que se aceite que há uma distinção fundamental e natural entre mulheres e homens que tem base na própria essência desses seres.


Nesse sentido, a proposta de Rousseau pode ser considerada diametralmente oposta à proposta de Beauvoir. Retornando ao que Beauvoir apresenta sobre a definição tradicional do ser mulher, é possível identificar essa construção social no referido livro de Rousseau, em que este limita a educação da mulher, e a diferencia do homem, a fim de torná-la uma verdadeira mulher. Esse processo é claro na construção de Sofia, que aprende como servir a Emílio, mas não aprende a ter autonomia intelectual. Desse modo, Rousseau desenvolve uma teoria de complementaridade sexual, “[a] tese é a de que as características femininas, por um lado, e as masculinas, de outro, formam dois grandes grupos homogêneos em que o sexo biológico é o determinante das funções e papéis sociais”. Característico desta situação é que um deve ser forte e o outro fraco:


Um deve ser ativo e forte, o outro passivo e fraco: é necessário que um queira e possa, basta que o outro resista pouco. Estabelecido este princípio, segue-se que a mulher é feita especialmente para agradar ao homem. Se o homem deve agradar-lhe por sua vez, é necessidade menos direta: seu mérito está na sua força; agrada, já, pela simples razão de ser forte. Não se trata da lei do amor, concordo; mas é a da natureza, anterior ao próprio amor.

Rousseau subordina as mulheres aos homens de modo claro e se funda na natureza para validar esta subordinação. O Iluminismo não questiona o papel que a mulher ocupou ao longo dos séculos anteriores, apenas traça métodos para estruturar de forma supostamente racional a subordinação das mulheres aos homens. A situação segue a mesma, a justificação muda. A concepção de natureza da mulher apresentada é a de passividade que pode ser explorada, de modo que os homens possam tirar proveito e subordiná-la conforme sua vontade. Os fundamentos que são ensinados a Sofia consistem em uma negação de sua liberdade em prol da satisfação de um homem, “entregando a mulher a desejos ilimitados, junto a esses desejos o pudor para contê-los”.


O homem tradicional, na concepção do século XVIII, é naturalmente protetor da mulher, que necessita que ele a defenda. A dicotomia entre forte e fraco é necessária para se completarem. O discurso de formação de Sofia é um discurso que limita, impõe e subjuga o ser mulher e nesses discursos se constitui a sentença, “esta é uma mulher”, ou “isto é uma mulher”. Soa mais como a formação de um objeto bem adornado do que de uma pessoa (subjetividade) consciente de suas capacidades. A formação feminina é feita pelo não ser: é explicitado a jovem o que ela não pode de modo algum fazer, porque ela necessita tornar-se mulher, não ser apenas fêmea. Rousseau a categoriza e invalida a busca da mulher por igualdade dizendo que “essa desigualdade não é uma instituição humana ou, pelo menos, obra do preconceito, e sim da razão: cabe a quem a natureza encarregou do cuidado dos filhos a responsabilidade disso perante o outro”.


Outro ponto importante para o feminismo que Simone de Beauvoir apresenta diz respeito aos padrões impostos pelos homens ao comportamento das mulheres, que estavam fundamentados na ideia de que as mulheres eram irracionais e, deste modo, ditavam a maneira que estas deveriam se comportar, criando uma padronização da beleza e as valorizando na mesma proporção que se valoriza um objeto qualquer, como um ornamento. As mulheres foram então pensadas como sendo seres submissos e sem direitos.


É neste cenário que se torna mais evidente a luta por igualdade do movimento feminista, que pretende, de modo geral, a igualdade de direitos entre homens e mulheres. O segundo sexo (2016) emerge como uma contestação a essas definições históricas do que é uma mulher, concepções que foram durante séculos perpetuadas por meio do silenciamento das mulheres que ousavam ser diferentes. Conforme Beauvoir, “Um homem não teria a ideia de escrever um livro sobre a situação singular que ocupam os machos na humanidade. Se quero definir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: Sou uma mulher”. A mulher, ao tratar de algum assunto, seja de algo distante dela ou sobre o que ela é, precisa sinalizar que é uma mulher quem fala. Mas por que é necessário tal sinalização? Simples: segundo a concepção tradicional, a neutralidade e a força do conhecimento são aspectos naturais masculinos. Mas a mulher, o que é? De acordo com a perspectiva criticada pela proposta feminista de Beauvoir (1949), é melhor dizer o que ela não é. Dentro da conceituação (filosófica) de ser mulher, pode-se concluir que este grupo não corresponde à definição de um ser completo. Segundo construções socialmente aceitas, a capacidade intelectual, civil e dogmática da fêmea transmutada em mulher é de se tornar propriedade de alguém. Funda-se a ideia de um quase ser como parte da definição de ser mulher.


Logo, o que é identificado no processo de análise sobre a construção do mundo? Que esse é estruturado mediante as ideias masculinas, concepção esta que coloca as mulheres na posição de serem subjugadas, exploradas e oprimidas. Afinal, os homens ainda detêm grande parte do poder nos campos da ciência, política e religião; ou seja, nos lugares de produção do conhecimento.


A emancipação


A concepção Iluminista do que é ser uma mulher foi bem aceita e tornou-se forte socialmente; algumas mulheres do século XVIII e XIX (e.g., Louise D’Epnay, Châtelet) já questionavam esta sujeição irracional das mulheres, mas foi no fim do século XIX e início do século XX, com o surgimento da primeira onda do movimento feminista, que o sufragismo trouxe a primeira parcela de libertação dessas mulheres, por meio do voto. A busca por ser vista como ser humano e não como a projeção de um subser é a grande reivindicação feminista de Beauvoir. Ela constrói o capítulo final de sua obra, intitulado “A caminho da libertação”, afirmando que o trabalho seria o primeiro passo para o processo de independência. Como diz Beauvoir, “em um mundo, que sempre pertenceu aos homens, conserva ainda a forma que eles lhe imprimiram”, ou seja, o poder econômico e intelectual majoritariamente ainda pertence aos homens. Para as mulheres estão destinados os trabalhos que não reivindicavam muitas habilidades intelectuais.


Devido ao benefício financeiro que gera o desenvolvimento intelectual das mulheres abastadas, estas conseguiam melhores empregos, mas ainda assim eram empregos de auxílio, como o de secretária. Estes eram os empregos destinados ao segundo sexo e asseguravam, por meio da inferiorização, que a virilidade do homem fosse mantida, pois este continuava a ser o chefe, ou o provedor.


Quando, porém, a demanda de emprego era referente às mulheres pobres e desprovidas de formação acadêmica, estas acabavam por se sujeitar a subempregos, como Beauvoir descreve a partir do relato de experiência de Simone Weil (1909-1943). Para poder escrever sua teoria filosófica, Weil se submeteu aos trabalhos de operária em uma fábrica da Renault. Ela criticou com veemência a situação a que os operários eram submetidos, pois eram expostos a tanto serviço que era impossível que desenvolvessem a habilidade de pensar, resultado de um cansaço extremo. Beauvoir ainda relata que, na pesquisa de Weil, as mulheres afirmaram “que preferiam ficar em casa a trabalhar na fábrica”.


Parece correto afirmar, então, que a labuta da jornada dupla afeta com gravidade as mulheres menos favorecidas. Neste contexto é possível observar que este grupo possui um conhecimento diferenciado do mundo, porém estas encontram no trabalho sua única alternativa de emancipação econômica, embora ela não ocorra de fato. Isso é um reflexo claro do sistema capitalista a pleno vapor, que deixou evidente o despreparo que a sociedade de maneira consistente estruturou para manter as mulheres presas em seus afazeres e as condicionou como sujeitas a alguém (o homem), que pudesse suprir suas necessidades e representá-las enquanto indivíduo social. De acordo com Beauvoir, “Em sua maioria, as mulheres que trabalham não se evadem do mundo feminino tradicional; não recebem da sociedade, nem do marido, a ajuda que lhes seria necessária para se tornarem concretamente iguais aos homens”.


A igualdade que era almejada não seria a de aspecto físico ou de que as mulheres precisariam personificar as atitudes dos homens. O que as feministas queriam é que a sociedade se estruturasse de modo que a elas não fossem delegadas mais funções e menos reconhecimento, ou que lhes fosse negada a humanidade. Pretendiam romper com o conceito internalizado socialmente que define a realização da mulher por meio da sua sujeição ao homem, negando a elas autonomia em sua vida. No livro Por uma moral da ambiguidade, Beauvoir diz que “querer a liberdade e querer desvelar o ser, é uma única e mesma coisa” . Então, almejar a liberdade das mulheres é entender o que as condicionou ao seu papel social, entender suas raízes e arrancá-las uma a uma, para começar então a conhecer o que é ser mulher e o que seria essa mulher independente.


Beauvoir concebe o início da emancipação por meio do trabalho, mas deixa evidente em sua obra que isso não acontece efetivamente, pois a mulher se vê limitada, mesmo que trabalhe. Quando encontra a emancipação intelectual, já não serve mais para o estabelecido ser mulher, “irrita-se com seu servilismo [...] fala ao invés de escutar, expõe pensamentos sutis, emoções inéditas; contradiz seu interlocutor em lugar de o aprovar, tenta ser-lhe superior”. Essa mulher já destoa em muito do que era o seu papel definido no Século das Luzes, e torna-se alguém que não se encaixa em uma definição de subjugada. Ela não é um homem e então é vista como aberração, alguém desprovido de lugar, porque os homens se recusam a aceitá-la por igual.


A questão é que a mulher rompeu o âmbito privado quando saiu para trabalhar e estudar, ocupando um pequeno lugar nas esferas públicas e tradicionalmente masculinas. Mas sua função de mulher servil que precisa cumprir os ritos da feminilidade não se desconstruiu, a angústia da liberdade e a prisão do ser mulher passaram a conviver em um só corpo. Beauvoir diz que “é no seio de uma situação atormentada, escravizada ainda aos encargos tradicionalmente implicados na feminilidade, que ela se empenha em uma carreira”. As obrigações do ser mulher ao longo da vida a limitam em seus estudos e sua carreira, pois ela dificilmente consegue ter uma educação plena. O tempo para dedicar-se apenas aos estudos, como os homens têm, sempre as coloca em desvantagem,


Mas ora a revolta dos oprimidos, ora a própria evolução da casta privilegiada cria situações novas; por isso os homens foram levados, em seu próprio interesse, a emancipar parcialmente as mulheres: basta a estas prosseguirem em sua ascensão e os êxitos que vêm obtendo incitam-nas a tanto; parece mais ou menos certo que atingirão dentro de um tempo mais ou menos longo a perfeita igualdade econômica e social, o que acarretará em uma metamorfose social.

Mesmo tal emancipação sendo possível, não é desejável aos homens perderem seus privilégios sociais. Em pleno século XXI, permanecem destinadas às mulheres diversas funções sociais, que são funções diretamente associadas ao gênero, pois chegam em casa, cuidam dos filhos, lavam roupa, limpam casa e ainda organizam as finanças, além das demandas do mercado de trabalho.


Libertar metade da população da sujeição é um processo possível por meio da construção de relações guiadas no princípio da reciprocidade, ou seja, não associar tarefas ao sexo, mas à pessoa, pois são fundamentos bases dessa emancipação feminina. Romper-se-ia então com esta ideia de homem igual à humanidade, e se passaria a ter relações de ser humano para ser humano. A emancipação do ser mulher para Beauvoir vem de forma consciente, por meio de luta; a libertação da mulher é política, econômica e social, mas precisa ocorrer de modo coletivo, ela jamais será individual.


As mulheres que nunca foram Sofia


De saída, pode-se identificar que a concepção de Beauvoir de independência não contemplaria as mulheres negras, dado o seu foco na libertação pelo trabalho. Afinal, as mulheres negras são dadas ao trabalho desde muito jovens, como parte de um legado da escravidão. É, então, consistente dizer que a concepção de independência de Beauvoir, que contempla a luta contra o machismo e o direito de igualdade, não tem no seu centro questões fundamentais para as mulheres não europeias. Exclui, pois, mulheres que são diferenciadas por sua cor, além de seu gênero e poder econômico. O que para uma esfera social de mulheres é considerado libertação, para outras ainda é uma discussão extremamente distante de sua realidade. Ao conceber um sentido de luta social feminista que leve em consideração as identidades múltiplas, Kimberlé Crenshaw (1989) cunhou o conceito de “interseccionalidade”, que pode ser compreendido como uma condição de um feminismo para todas. Por meio desse conceito, busca-se compreender as diferenças sociais, raciais e de gênero que causam uma intersecção de opressões, até então não discutidas. A interseccionalidade visa o diálogo entre as diversas realidades vividas por diferentes mulheres e que ocupam diferentes posições na sociedade. Evidencia-se, por meio do conceito interseccional, a luta feminista que incorpora outros lugares de fala e o porquê da necessidade de considerar outros grupos da sociedade como agentes de conhecimento. O lugar de fala é um conceito que será tratado aqui, porque é por meio de espaços de visibilidade de mulheres excluídas (neste caso as mulheres negras) que se começa a perceber a dimensão do apagamento desses grupos. As mulheres negras estão buscando, ao longo da história, tornarem-se seres políticos e obter o poder epistêmico, pois, como afirma a teórica brasileira Lélia Gonzáles (1988), as mulheres brancas e com poder aquisitivo teriam mais espaço de fala do que as negras. Tomar o debate acerca das mulheres negras como principal é começar a compor um conceito feminista que consiga abranger a todas. Isso ocorre porque, ao tratar das mulheres negras, está-se falando diretamente de um grupo de pessoas que precisam lidar com o dilema das opressões interseccionais.


A negação da humanidade para os sujeitos mulher e negro acarretou no seu silenciamento. Para reverter tal situação, é necessário lembrar o papel que o discurso tem. O discurso não é como uma frívola retórica, mas como uma estrutura que pode alterar o imaginário social. As mulheres negras, lésbicas, pobres, indígenas não são socialmente construídas da mesma maneira, apesar de todas viverem uma situação de desfavorecimento e vulnerabilidade por serem mulheres e por carregarem esses outros marcadores sociais. A intersecção é necessária porque há a luta da mulher branca, que se distingue da luta da negra, contra o racismo e a falta de representatividade em espaços de poder. Também da lésbica, que luta contra a homofobia, e se for lésbica e negra pode sofrer todas as discriminações citadas acima, assim como as mulheres transgênero.


O feminismo interseccional ressalta as demandas de localidade, pois as opressões de gênero, raça, sexualidade e classe social se manifestam de acordo com o lugar em que a sujeita vive. Esse pretende ser um conceito de inclusão para as mulheres que usualmente não são enxergadas porque estão fora dos padrões tradicionais que definem o que é ser mulher. É uma forma de trazer para a luta feminista aquelas que estão em um lugar mais profundo de desigualdade, como as mulheres negras, pobres e homossexuais.


No livro de Angela Davis, Mulheres, Raça e Classe (2016), em seu primeiro capítulo, a autora apresenta algumas dimensões que são tratadas de forma neutra dentro da concepção feminista de Beauvoir. A concepção de luta por igualdade das mulheres brancas começa por emancipação no âmbito privado (casa), o das mulheres negras começa no público (escravidão). Esse ponto é crucial para o desenvolvimento dos papéis sociais que ambos os grupos desempenham ao longo da história, por isso enxergá-las por meio de um único ponto de vista (feministas europeias e norte americanas abastadas) é de fato não compreender a história. As mulheres, de modo geral, buscam igualdade e liberdade, mas tais demandas surgem de lugares distintos para cada grupo, ao longo da história.


Joan Scott afirma que

[a]o invés de procurar causas técnicas e estruturais específicas, devemos estudar o discurso a partir do qual as divisões do trabalho foram estabelecidas segundo o sexo. O que deve produzir uma análise crítica mais aprofundada das interpretações históricas correntes.

Para a autora, o lugar que a mulher ocupa socialmente é fruto do discurso que os homens pronunciaram ao longo dos anos, a concepção difundida de masculinidade e feminilidade entre homens e mulheres e a subcategorização de alguns tipos de mulheres. Os discursos validados por esses senhores (homens com poder social) inferiorizam e respaldam a divisão social entre os gêneros, dizem qual trabalho merece reconhecimento e qual não merece.


Mas Scott (1995), assim com Davis (2016), direciona a discussão para os pontos de fuga do problema, mostrando que a demanda da produção de conhecimento feminino está defasada devido a problemas na estrutura social que as mulheres ocupam. Veja bem, as mulheres negras eram vistas como propriedade, trabalhavam compulsoriamente, não tinham identidade, não eram consideradas pessoas, i.e., sua existência era submergida. Essa negação do ser mulher era útil na demanda de trabalho visando o lucro. O atributo de fêmea só era dado quando os senhores as violentavam sexualmente, pois demonstravam seu domínio e as diminuíam ao lugar de animal irracional. Davis afirma: “A julgar pela crescente ideologia da feminilidade do século XIX, que enfatiza o papel das mulheres como mães protetoras, parceiras e donas de casa amáveis para seus maridos, as mulheres negras eram praticamente anomalias”.


Este lugar da mulher negra é muito distante do lugar da mulher branca, como compreendido na obra de De Beauvoir,


O privilégio que o homem tem, e que se faz sentir desde sua infância, está em que sua vocação de ser humano não contraria seu destino de macho. Da assimilação do falo e da transcendência, resulta que seus êxitos sociais ou espirituais lhe dão um prestígio viril. Ele não se divide. Ao passo que à mulher, para que realize sua feminilidade, pede-se que se faça objeto e presa, isto é, que renuncie a suas reivindicações de sujeito soberano.

Observa-se que as questões tratadas na citação acima são sobre as mulheres europeias, sobre as demandas que mesmo as que conseguem se estabelecer financeiramente precisam ter com a casa, com sua aparência, pois precisam continuar como uma “verdadeira mulher”. Mas onde estão a mulheres negras? Não estão! Nem sequer entraram nesse “caminho da libertação” escrito por Beauvoir, pois são seres da margem, não são projetadas para se tornarem mulheres, são fêmeas, vistas como desprovidas de humanidade.


As questões de independência apresentadas são de extrema importância, mas ainda soam como questões incompletas, até mesmo para cumprir o desejo de Beauvoir, que consistia na libertação das mulheres de forma coletiva e não individual. Afinal, a solução descrita n’O segundo sexo não se dispõe a olhar a história e identificar as opressões sofridas pelas mulheres negras e as demais não padronizadas, mas é uma análise feita por meio do olhar da filósofa. Beauvoir trata da emancipação feminina no âmbito econômico e social, da aceitação de uma nova configuração do sujeito mulher. Mas ao tratar das mulheres negras, precisa-se compreender o aspecto de animalização que foi imposto a elas. Se para as mulheres brancas europeias uma emancipação parece distante, como é para uma mulher negra ousar pensar sobre si como mulher? O que seria uma mulher negra? Esta pessoa negra pode tornarse mulher dentro do conceito estabelecido socialmente (o “modelo Sofia” de Rousseau)? Assumir tal papel não lhe traria mais uma opressão? Deve-se pensar sobre tais questões. A emancipação discutida por Beauvoir é explicitamente insuficiente para as demandas das mulheres negras, pois estas estão no subsolo, elas estão na base do sistema, ele as engole e as faz de apoio para se estabelecer. Houve uma reconfiguração do sistema escravagista, mas não seu fim.


[...] o âmbito do trabalho doméstico inclui, em um extremo, as mucamas, as amas-de-leite e, no outro, as carregadoras de água ocasionais, as lavadeiras e costureiras. Até mesmo as mulheres que vendiam frutas, verduras ou doces na rua eram geralmente escravas que, com frequência, desdobravam-se também em criadas da casa durante parte do dia. A meio caminho estavam as cozinheiras, copeiras e arrumadeiras. O que as distinguia não era apenas o valor aparente de seu trabalho para o bem-estar da família, refletindo no contato diário que cada um tinha com os membros desta, mas também o grau de supervisão.

O sistema descrito na citação parece muito com o lugar ocupado hoje pelas mulheres negras. Para analisar a mulher negra, é necessário pensar o que a definição mulher negra carrega, e, por vezes, cai-se no padrão da escravidão, no qual elas não são definidas por sua pessoalidade, mas por seu lugar social, seus subempregos.


Por exemplo, ao pegar o ônibus 330 às 6h da manhã na cidade de Cuiabá/MT, é possível observar a quantidade de mulheres negras que estão dentro do veículo. A maioria dessas senhoras desembarca ou nos bairros Alphaville ou Boa Esperança (lugares nobres da cidade), onde trabalham como empregadas domésticas ou como babás. Muitas delas precisam trabalhar durante o final de semana porque as patroas precisam viajar ou ir a algum evento, colocando as funcionárias na seguinte encruzilhada: perder o serviço ou abandonar os filhos. Essas senhoras muitas vezes precisam abandonar seus filhos em casa (na maioria das vezes são bairros periféricos com alto índice de criminalidade) para manter o emprego que os alimenta. É como uma faca de dois gumes: deixar seu filho vulnerável ou deixá-lo passar fome?


Ver essas situações suscita a reflexão sobre essa concepção de emancipação elaborada no século XX, mas ao mesmo tempo tão distante da situação das mulheres negras do século XXI. Davis ressalta que “as mulheres negras sempre trabalharam mais fora de casa do que suas irmãs brancas”. Elas ficavam confinadas em seu trabalho (escravo) e raramente em casa, desempenhando seu papel de mãe, esposa e dona de casa. A autora se refere ao período escravagista norte-americano, mas ao analisar o exemplo citado acima pode-se reparar muitas semelhanças entre os relatos. Para pensar a mulher negra não é possível olhar de cima, porque estas estão na base da exploração e dominação do homem branco e enriquecido, basta observar a história.


Davis (2016) relata que as opressões sofridas na lavoura pelas mulheres negras eram iguais às dos homens negros, ambos trabalhavam do nascer do sol ao pôr do sol. As mulheres ainda sofriam violência sexual e podiam ser submetidos a torturas que só poderiam ser infligidas a uma mulher, como no caso da operação de fístula vesico-vaginal desenvolvida pelo médico James Marion Sims. Ele utilizou das mulheres escravizadas como cobaias para desenvolver sua técnica médica e as submetia a cirurgias sem anestesia. Esse fato aponta para algo que ainda acontece até hoje, pois um dos relatos mais frequentes quando tratado do assunto de violência obstétrica é sobre a ausência de assistência para com as mulheres negras antes, durante e depois do parto. Há indícios históricos que foram realizados mais de 30 procedimentos na escrava Anarcha, que começaram quando ela tinha 17 anos. “As cirurgias eram feitas sem anestesia. Na época, acreditava-se que as pessoas negras não sentiam dor da mesma maneira que as brancas”.


A postura dos senhores em relação às escravas era regida pela conveniência: quando era lucrativo explorá-las como se fossem homens, eram vistas como desprovidas de gênero; mas, quando podiam ser exploradas, punidas e reprimidas de modos cabíveis apenas às mulheres, elas eram reduzidas exclusivamente à sua condição de fêmeas.

Com a abolição do tráfico de escravos, os senhores começaram a valorizar a capacidade reprodutiva das mulheres negras, estas começaram a ter o seu preço elevado por sua capacidade de gerar filhos, mas não de modo admirado como era dirigido às brancas. No caso das mulheres negras, isso ocorria de forma animalizada, sem nenhum tipo de respeito ou condições adequadas do ponto de vista financeiro, psicológico ou físico. Elas eram classificadas como reprodutoras, não como mães, pois eram fêmeas e não mulheres. É possível identificar esses aspectos no relato de Sojourner Truth. Ela relata, em 1797, que teve 13 filhos e os viu serem vendidos. Ela diz com veemência que sua dor de mãe, de mulher, de ser humano, foi engolida por sua situação de escrava, condição esta que lhe tirava a dignidade mínima.


As mulheres negras eram submetidas a frequentes estupros. Essa atitude estava atrelada à concepção de domínio dos feitores sobre as mulheres e também sobre os homens negros, tirando deles o papel de protetor e provedor. Todos que estavam em situação de escravidão eram submetidos à soberania do senhor dos escravos. As mulheres negras trabalhavam exaustivamente, recebiam castigos físicos, engravidavam, tinham alguns de seus filhos vendidos, outros ficavam com elas. O tão necessário e sagrado pós-parto feminino das mulheres brancas não existia para essas mulheres escravizadas, porque elas não eram consideradas mulheres; elas eram consideradas apenas fêmeas. Quando suas crianças não eram vendidas, elas precisavam levar seus filhos para os campos de plantação e continuar produzindo da mesma maneira que produziam antes. Lembrando que essas narrativas são referentes às condições das mulheres escravizadas no sistema norte-americano, mas se parecem muito com a situação no Brasil. No relato de Davis (2016), as mulheres precisavam produzir o mesmo rendimento que os homens no serviço braçal, mesmo estas tendo outras demandas de cunho físico (parto, amamentação, cuidado com os bebês, etc.) que provavelmente as enfraqueciam e causavam dores, questões essas com as quais os homens não lidavam.


Obviamente, os proprietários buscavam garantir que suas “reprodutoras” dessem à luz tantas vezes quantas fosse biologicamente possível. Mas não iam tão longe a ponto de isentar do trabalho na lavoura as mulheres grávidas ou as mães com crianças de colo. Enquanto muitas mães eram forçadas a deixar os bebês deitados no chão perto da área em que trabalhavam, outras se recusavam a deixá-los sozinhos e tentavam trabalhar normalmente com eles presos às costas.

A partir dessa breve recuperação histórica é possível perceber que a questão da independência das mulheres negras dos países colonizados está muito distante da luta emancipatória discutida por Beauvoir. O custo desta libertação é a preço de sangue. Não se trata de invalidar a luta das mulheres brancas, mas de ressaltar o abismo que há entre os dois polos da emancipação. Nas reivindicações das brancas, um exemplo de consequência que pode ocorrer é uma mulher se ver excluída do seu meio por ser independente e conseguir se manter financeiramente sem um homem. Isso pode custar a ela o casamento e não se casar é uma espécie de maldição: isso na Europa de 1940. Não se pode negar que essas opressões direcionadas às mulheres brancas causam dor e desconforto, e a lista de opressão e violência sofrida pelas mulheres é longa. Porém, quando se trata das demandas feministas das mulheres negras, suas reivindicações partem de circunstâncias mais brutais, por exemplo, como o espancamento por não produzir o suficiente, devido às fortes dores nos seios e febre causada por não poderem amamentar seus filhos. E além das questões físicas, havia também uma demanda psicológica envolvida. Davis comenta:


Moses Grandy descreve a difícil situação das escravas que eram mães: Na fazenda a que me refiro, as mulheres que tinham bebês em fase de amamentação sofriam muito quando suas mamas enchiam de leite, enquanto as crianças ficavam em casa. Por isso, elas não conseguiam acompanhar o ritmo dos outros: vi o feitor espancá-las com chicote de couro cru até que sangue e leite escorressem, misturados, de suas mamas.

Toda essa estrutura social massacrante do lugar das mulheres negras reflete hoje o apagamento dessas mulheres em espaços de poder, pois deixa evidente a ausência de olhar diretamente para os lugares onde há a demanda das mulheres negras, as quais jamais irão ser definidas como adequadas para se encaixar no padrão Iluminista.


Retornando à indagação feita anteriormente sobre o tornar-se mulher em dilema com a questão da emancipação das negras, é razoável dizer que levá-las para a lógica de que sua emancipação vem por meio dos critérios de emancipação da mulher branca europeia é repetir a lógica de dominação da escravidão, pois estas novamente se encontrarão sem o direito de ser um ser político. As poucas que alcançam alguma posição social de poder sofrem inúmeras dificuldades em seu caminho.


Pode-se pensar em uma história mais recente no Brasil, da escritora Carolina Maria de Jesus: mulher negra, periférica, semianalfabeta que faz uma análise sobre ser mulher negra e pobre na periferia brasileira. Carolina de Jesus não separa o ser negra do ser mulher, e ela é bem consciente da proporção que o gênero e a raça influenciam no seu destino. Em umas das passagens do seu livro, Quarto de despejo, diz: “Mas, o pobre não repousa. Não tem o privilégio de gozar descanso”. Ao ler esta afirmação, e os relatos da escritora sobre sua labuta diária para o sustento de seus filhos, remete-se ao que Davis apresenta sobre a condição de trabalhadora vinculada à definição de mulher negra. As mulheres negras não eram consideradas nem como o outro e nem como o sujeito; não eram mulheres, eram um ser desprovido de lugar. Então, como elas poderiam apresentar ao mundo suas vivências se esta concepção universalmente europeia, difundida como natural, as classificava como um não ser?


Hoje a mulher negra já é, ao menos em termos legais, reconhecida como ser humano e dispõe de leis que teoricamente a protegem. Mas, no dia a dia, há alteração do papel de explorada e subordinada? Onde está Carolina Maria de Jesus na literatura brasileira? Poucos a conhecem, é praticamente invisibilizada no Brasil. Em suas próprias palavras afirmou: “Digam que eu procurava por trabalho. Mas sempre fui preterida [...] Digam que meu sonho era ser escritora, mas eu não tinha dinheiro para pagar uma editora”. A narrativa demonstra que a mulher negra é sempre preterida. Adiante, Carolina de Jesus discorre sobre a fala de um dos senhores a quem ela entregou seus escritos, o qual lamenta que ela seja negra.


O problema evidenciado aqui é novamente a concepção de não ser direcionado às mulheres negras, e desta categorização surge a falta de recurso econômico, pois mesmo trabalhando exaustivamente não conseguem um salário ou emprego digno das condições humanas. Como relata Carolina de Jesus: “[e]u não tinha dinheiro em casa para comprar pão. Trabalhei até as 11:30, quando cheguei em casa era 24h”. Ou seja, um dia todo exaustivo de trabalho para o sustento ainda miserável que sua família vivia.


O que foi apresentado sobre a situação das escravas e sobre a demanda de trabalho árduo que Carolina descreve torna evidente que ainda hoje não se tem uma emancipação da mulher negra. Esse é um ponto crucial para compreender que o escrito de Beauvoir, A caminho da libertação, não contempla as mulheres não brancas, pois se configura justamente por um processo que extrai do cerne da discussão de gênero o aspecto da raça e da classe.


Considerações finais


A interseccionalidade apresenta-se como um importante conceito para destacar a importância de não invisibilizar as opressões. No caso desta investigação, é tratada a questão racial devido às ocorrências de racismo e inferiorização que acometem as mulheres negras, que são por vezes de gênero e raça. O problema da emancipação das mulheres negras é que estas opressões estão nas entrelinhas: não são mais caracterizadas como escravidão, mas carregam os mesmos males. Ao mesmo tempo em que ela começa a ser reconhecida como mulher, é subalternizada e limitada, pois sofre as mazelas de sua cor. Segundo o manifesto Feminismo para os 99%, historicamente mulheres feministas se mostraram racistas. Por exemplo, algumas sufragistas se revoltaram com o direito dos homens negros ao voto e, recentemente, no século XX, feministas britânicas defenderam o governo colonial na Índia. Assim, é possível identificar essa dinâmica de poder dos brancos mesmo nas reivindicações feministas.


[...] por que o negro é isso que a lógica da dominação tenta (e consegue e muitas vezes, nós o sabemos) domesticar. E o risco que assumimos aqui é o do ato de falar com todas as implicações. Exatamente porque temos sido falados, infantilizados (infans é aquele que não tem fala própria, é a criança que se fala na terceira pessoa, porque é falada pelos adultos), que neste trabalho assumimos nossa própria fala. Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa.

Parece que a alternativa para não cair no racismo é um feminismo interseccional que dá voz às mulheres negras, para que estas possam falar por si. Sabe-se que a interseccionalidade abrange outras opressões, mas o recorte dado aqui é sobre raça, por entender que esta tem um fator muito marcante na estruturação da sociedade capitalista, podendo denunciar os equívocos da própria movimentação feminista, para que não se construa um novo ideal de mulher a ser seguido, mas que o conceito mulher se pluralize por meio da diversidade que há nos sujeitos de margem.


O objetivo de lutar contra as opressões de gênero, raça e classe é que essas estruturas sociais que acabam por encobrir e desumanizar as mulheres não-Sofias sejam denunciadas dentro da discussão feminista, retornando ao princípio de Beauvoir, que é o da emancipação de todas. A interseccionalidade aponta, questiona e diz que é preciso pensar e repensar a emancipação do ser mulher, partindo do conhecimento que cada um desenvolveu sobre o mundo, por meio de suas vivências. É correto dizer que padronizar o que é uma mulher é reconstruir a opressão, indo de encontro à interseccionalidade, que apresenta a mulher como múltiplo sujeito que experencia e conhece o mundo de um lugar corporificado, mas com o intuito de emancipação social e individual.


Yasmin Nobre da Silva é Co-Vereadora do Mandato Coletivo pela Vida e por Direitos e Licenciada em Filosofia e Mestre em Filosofia pela Universidade de Mato Grosso. Atualmente é professora da Rede Pública do Estado de Mato Grosso e supervisora do PIBID interdisciplinar – Filosofia e Sociologia – UFMT.